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serenidade

No dia 31 de janeiro, no grupo do Telegram “Psicanálise e você” (aqui o link: https://t.me/joinchat/C8vFhUMBUpcxrp3GXtoiiw), o tema da discussão foi a respeito de "quando o favor vira obrigação", proposto pelo Mauricio Christo, um dos administradores do grupo. Como geraram temas e reflexões muito bacanas, compartilho por aqui, parte da discussão que tenha acontecido. Tomei a liberdade de citar a fala na íntegra dos membros do grupo (omitindo as suas @s), mas usando a cor azul para retratar a fala de cada um dos membros.  Em preto, continua sendo a minha fala.

 

E deu início ao debate:

 

Nós, seres em franca evolução que, a cada ano estamos mais cascudos, mais maduros e menos infestados de paradigmas sociais, ainda nos deparamos com situações de comodismo: por mais simples e indolor que pareça, a pessoa faz um favor hoje, faz o mesmo favor amanhã, lembra e faz de novo um outro dia... quando menos se percebe, já é cobrado pela frequência do mesmo "favor". Todo mês, todo dia, toda hora. Existe sempre alguém disposto a encostar o burro na sombra alheia. Pode acreditar.

Situação chata, não?

Pois bem, vamos ao conceito. Parece que existem várias zonas de conforto se instalando com o costume de "fazer um favor", de tal forma que o temporário vira definitivo e o que era acidental vira prioritário. Isso acontece na família, no trabalho, entre os amigos, na rodinha da balada, nas festas e em tantos outros lugares.

Vamos também pensar na caridade, sem amarras religiosas: quantas vezes já vimos pessoas carentes que, por termos o hábito de as alimentarem, baterem à sua porta pedindo comida? Ora, que não passe pela cabeça dos senhores que recusar um único dia gera uma reação amistosa: as vezes essas pessoas agem com agressividade, usam de escárnio e ofensas para descontar a ruptura do hábito, obviamente não absorvida com naturalidade.

Dei apenas exemplos, que têm o objetivo de ilustrar que isso está na forma como, acredito eu, a maioria dos seres humanos lidam com a tradição: é sempre bem-vinda quando constante, pois gasta-se menos energia. Quanto mais obrigação se torna o favor, menos necessidade eu tenho de gastar energias para cobrir a necessidade que o "favor" já supre.

Deixo, aqui, uma pergunta retórica (essa é para você pensar e responder apenas para si):

Será que você não está tratando com obrigação algum favor concedido a você?

Agora, lanço a reflexão a todos vocês:

- Qual deveria ser o nível de entendimento das pessoas com relação aos favores?

- Qual o limite você daria para a caridade, pela linha de pensamento do tema?

 

Uma pessoa anexou  ao tema a grande diferença  no agradecimento: muitos ao receber  um favor dizem "Obrigado", porém essa expressão está errada!!! Devemos dizer: sou grato!!! Ao não ser: que a pessoa esteja ali obrigada, mesmo. Obrigada enquanto aprisionada.

 

Acreditamos que o favor é essencial.. para ajudar, formar amizades. Mas muitos acabam deixando o favor ser uma obrigação. O que prejudica. Acho que muitos não sabem ter limite pra fazer favor é receber favor.

 

Adorei essa pergunta retórica. Eu mesma tenho dificuldade de pedir favor às pessoas (sou orgulhosa, confesso). E, por outro lado, sou bem teimosa e, também, preguiçosa. Então, pequenos favores (em casa) eu curto. Eu acho que o nível das pessoas deve ser de respeitar o limite de si e do outro. Não abusar, portanto.

 

Achamos que a troca de favores é um fator de aproximação de amizades? Até que ponto você acha isso saudável?

 

Pensamos que caridade é aquilo que é dado ou ofertado sem se pedir nada em troca. E que é doado sem solicitação de retorno. Há que se ter em vista do que é caridade e do que é ego.

 

Até quando não te deixa sobrecarregado e exausto. Tipo. Ser bom e agradável pra ambos.

 

A pergunta retórica tira a gente apenas sobre a reflexão abstrata sobre a vida da média das pessoas... pensar em si é importante para a tal da clareza. Mas será que um pouco de orgulho, rejeitar um pouco do mimo, não é uma linha de raciocínio que permite manter a saúde do inconformismo e evitar zonas de conforto? Eu pelo menos vejo que é uma saída.

 

Há que se ver que as pessoas gostam de ter outras por perto. Pelo menos para pedirem favores. Digo isso até profissionalmente. De a gente acabar "escravizando" o outro. De qualquer forma, negar a ajuda (quando for possível), é importante.

 

Como explicar melhor sobre esses limites...

 

Por exemplo: ter que pedir um favor quando o outro está cuidando da sua vida. Ou sofrendo. Tenho visto isso de alguma forma. Uma pessoa sofrendo muito não é capaz de cuidar de alguém. E aí, o outro pode solicitar cuidado, ajuda, afeto, atenção. Mas quem está sofrendo é humanamente impossível estender a mão ao outro. Então, há que se respeitar o seu limite e o limite do outro, entende?

 

Puxa vida, essa definição difícil de conceber... Poderíamos conceber a situação de uma pessoa dando uma peça de roupa para um mendigo sem esperar que ele te agradeça? Ou ver o sorriso de alguém quando recebe alguma coisa sua? Tudo bem, é fazer o bem ao próximo, OK.... mas não existe, pensando na natureza humana, um viés de troca na caridade? Uma troca de favores? Um prato de comida por um "Obrigado" ou um abraço? (meio pesada essa pergunta, mas me pego pensando nisso as vezes, quando vejo no noticiário o comentário de quem faz alguma boa ação)

 

Não! Caridade não depende do obrigado ou do abraço. Caridade é dar de olhos fechados. Se vier o obrigado ou o abraço, ótimo. Mas quem pratica caridade, genuinamente, não espera isso. E, caridades que são noticiadas, em geral, não entendo como caridade. A caridade é anônima. Não passa na televisão. Não é noticiado. Não tem ninguém vendo (além de si e do outro).

 

Aahhh sim! O limite é o tempo, o dinheiro e a energia disposta para tal... acho também que o limite é esse Flávio. Por que será que gostam? Acho que esse é o ponto alto do tema como um todo, porque existem realmente pessoas que têm o desejo de tirar algo de você pela dó…

 

Seria então um limite baseado na condição psicológica da pessoa?

 

Acho que também. Mas tipo: tem alguém chorando. Muito. E eu reclamo que esta pessoa chorando não está me dando atenção, carinho, chamego? É algo "óbvio", saca? Se torna abuso. Não precisa ser psi para sacar que tem situações que não dá.

 

Dever dinheiro é, também, dever favor na minha opinião. Acho que não há nada melhor do que ser credor na vida. As mazelas da vida e os defeitos dos outros custam mais a nos atingirem. O que você acha sobre isso? Agora entendo. É incompatível porque, para fazer alguma coisa, a pessoa precisa estar disposta e preparada para isso. Pedir algo para quem não está com essa disposição é humanamente inviável.... e chega a ser um abuso.

 

Sim: exatamente... e ai acho que fala mais de carência do que qualquer outra coisa.

 

Exatamente. E sim, acho que gostam (ainda que de forma inconsciente, sabe?). Tipo? de ter um prazer mórbido.

 

Uma colega aprendeu com uma gestora, que dizia. Deva dinheiro mas, não deva um favor. Considerava que o favor não tem como mensurar.

 

E o tipo de trabalho que se faz para uma instituição de caridade? Que, depois de um tempo, adivinhe..... virou obrigação. Lógico, parou porque caridade é algo que vem de dentro, espontâneo, e não algo que se coloca nas planilhas de orçamento.

 

Exatamente! Por que aí se torna abuso de quem recebe.

 

Sim, só que sabemos exatamente quanto esse favor nos custou.

 

Talvez por isso não vemos caridade genuína tantas vezes.

 

A palavra “obrigado” vem do verbo obrigar. E seguindo a lógica, quando uma pessoa se sente agradecida pelo gesto de outra, sente também a obrigação de agradecer. Ao receber uma ajuda, o ajudado sente-se obrigado a devolver a ajuda recebida.

 

Mas o que é melhor, dizer? AGRADECIDO ou OBRIGADO? Cada palavra deve ser utilizada na devida situação...

 

Somos gratos por estarem lendo as opiniões de cada um.

 

Vale lembrar que é  de costume,  educacional em nosso  país.... Usar essa palavra, em colocações de agradecimento!!!

 

Então, podemos esboçar que o favor que vira obrigação tem um viés na carência do próximo, com o conforto de dispender de menos energia. Podemos visualizar assim?

 

Sim.

 

Em uma pesquisa na Internet foi descoberto nos sites especializados em língua portuguesa, que este assunto é campeão nas perguntas enviadas a tais sites. Somos educados a dizer a palavra OBRIGADO, ou pior ainda, MUITO OBRIGADO, quando na verdade queremos dizer apenas a palavra GRATO ou AGRADECIDO.

 

Interessante este viés de pensamento, e acredito que até um "obrigado" pode virar uma obrigação. Tanta gente que a gente vê por aí cobrando gratidão das pessoas... ora, se a pessoa faz para receber obrigado, então por qual motivo racional ela deveria fazê-lo? Acredito que a gratidão deva ser algo espontâneo, e não apenas oriundo de educação.

 

Eu concordo. Exato. A etimologia do obrigado é obrigado a. E  a gratidão fala da liberdade.

 

Esses momentos são importantes, pelo menos pra mim. Não foi só educação, pode ter certeza.

 

Gratidão é o reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor, um serviço, mas, sem a obrigação de retorno, afinal, já pagamos pelo serviço ou somos irmãos atuando uns pelos outros.

 

A gratidão é uma emoção que envolve um sentimento de alegria e graça e até quem sabe, uma emoção positiva em direção à outra pessoa. O próprio agradecer é como uma benção de boas energias que são a paga pelo serviço prestado. Uma paga de amor em forma de energia.

 

Poderíamos compartilhar algo a respeito? Puxa vida, liberdade!!! Você poderia desenvolver esse conceito melhor a partir da gratidão??? Gostei muito dessa linha de raciocínio.

 

A palavra "obrigado" vem do latim, “obligatus” particípio do verbo obligare, ligar, amarrar.

 

Claro. Há um estudo que diz a respeito da etimologia da palavra obrigado (aquele que se sente obrigado a = a ver com prisão). E a etimologia da palavra gratidão, que você é grato, e se torna livre.

 

Achamos também que a gratidão deveria se sobressair da obrigação, no sentido de fazer, conforme a sua possibilidade, e agradecer, conforme a sua vontade. E assim vamos trocando apenas sentimentos genuínos. Embora, pela natureza humana, tudo vira comum com o tempo, até a gratidão perde sua essência... mas como seria bom se fosse assim!! Então o favor transformado em obrigação é gentileza transformada em penitência!!!!!

 

A etimologia obrigacional é quando nos tornamos devedores de outrem por serviço que nos foi prestado, criamos um elo de ligação, mesmo que momentâneo. Esta palavra é usada quando se quer dizer a alguém que se sente obrigado a retribuir um favor que lhe foi prestado. Conota uma sensação de obrigação, um condicionamento, algo que deve ser pago, retornado ao emitente.

 

E a gratidão não tem obrigação. Não tem prisão.

 

Gente, jamais deixemos que os favores deixem de ser favores. Se alguém pede um favor, é porque ela acha que te sobra condição para isso. Mas quem sabe disso é você. E quando a pessoa acredita que essa disposição é renovável, isso se torna penitência. A pessoa que cobra se assemelha a um sócio. Se tem uma coisa que aprendi aqui é sair dessa zona de conforto, bater a poeira e livrar a cara desse tipo de situação. Penso que essa troca deva ser algo secundário, e não a estratégia em si. Fazer algo para receber sempre quase nunca é uma opção para construção de laços sólidos.

 

Criamos um elo que um dia terá de ser resgatado! Como vemos, o simples OBRIGADO, implica um "fico-lhe devendo", "tenho uma obrigação para com você". Os ingleses fazem algo parecido, quando dizem "I am obliged to you for ...". O brasileiro quando quer pagar pelo favor, diz "Te devo uma"..rsrsrs!!! Minha pergunta parece nada a ver, mas estamos aqui falando do cultivo da gratidão, e não da obrigação (como Creusa  disse, "Te devo uma").

 

E compensar uma gentileza ou um favor seria uma falha de personalidade?

 

Creio  que é um sentimento de não querer ficar se sentindo devedor. E se é gentileza, porquê não recebê-la?

 

Então sentir o desejo de retribuir por receber seria algo, em tese, saudável?

 

E como a palavra tem poder, isso fica registrado! Como os chelas dos mestres ascensos buscam a libertação, e assim sendo, precisamos aprender a falar corretamente para não sermos obrigados a renascer em uma outra encarnação, somente para pagar por uma obrigação prometida a alguém.

 

Por outro lado, tem muita gente que tem dificuldade em receber. Exemplo: quando se recebe um elogio tende a se justificar, saca?

 

Agora, não estamos afirmando aqui, que todas as vezes que vocês disseram obrigado para alguém, os fará reencontrar esta pessoa, isto seria humanamente impossível, digo apenas que esta é uma palavra que cria laços. Laços estes que nem imagino as consequências. Não tenho um texto dos mestres ensinando sobre isso, mas sei que o ideal é utilizar a palavra correta. E com certeza o ideal é falar o que realmente ocorre a cada situação...

 

Às vezes, vemos gente assim. Eu mesmo já tive essa dificuldade há muito tempo.

 

Podemos observar aqui que existe uma separação entre o favor, a penitência, a solicitação e a escravização. Não existe uma regra clara sobre como isso deveria ser evitado, a não ser alinhar a condição de quem pode fazer com a necessidade de quem procura. Então, separar o favor da obrigação precisa de investimento de "energia". É preciso ter o discernimento para entender quando a pessoa está tentando aproveitar demais da boa vontade. Essa linha de percepção é tênue.

 

É isso: precisa investir energia. Muito. Precisa ter um olhar fino sobre o outro e si mesmo.

 

Podemos perceber, claramente, que a gratidão é libertadora e a obrigação algema. Então, preferir gratidão a obrigação é um direito que temos que usufruir para construir laços verdadeiros.

 

Dá até vontade de chorar, não dá? É lindo isso, não é?

 

Houve também uma colocação muito importante: um favor precisa de disposição. Fazer algo para alguém requer que você esteja preenchido o suficiente de si mesmo, para não esperar agradecimento como moeda de troca.

 

Não adianta pedir um favor a quem não tem condição.

 

É isso.

 

Apesar das pesquisas, este é um tema que ainda temos muito que aprender… em minhas pesquisas li um ditado dado a Elizabeth Clare Prophet na Perola de Sabedoria Vol. 21, No. 14, o Elohim Cyclopea, Elohim do 5º raio nos ensina que precisamos aprender a dizer, quando alguém nos faz um favor, ou um trabalho: “- Grato, aprecio seu serviço”.

 

Forçamos novamente a retórica: o que você pode fazer para que os seus favores libertem, e não escravizem as outras pessoas? E o que você pode fazer para sair da zona de conforto da exploração de favores a motivações cada vez mais baratas, sustentadas pelo costume de fazê-los? Excelente sugestão da autora!!! Agradecido por compartilhar.

 

O tema é rico, embora curto.  Agradecemos a todos os que participaram até aqui. Meus neurônios sempre fritam (no bom sentido) nessas discussões, e sempre saio melhor do que entrei. Alguém tem mais alguma colocação a falar sobre os favores?????

 

E favor  é = gentileza?

 

Achamos que gentileza é mais uma motivação impulsionada pelo sentimento de fazer bem... não associo isso a um favor. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra, ao meu ver!

 

Quando o tema do debate é um, e o tema se multiplica e viram vários temas maravilhosos é sinal de que estamos indo pelo caminho certo!

 

[Um obrigada especial a Carlos Alberto, Creusa, Laureane e Mauricio, pelas valiosas contribuições]

[Todas as contribuições que estão aqui no texto foram cedidas e autorizadas pelos membros a vir para o site]

Luana Zanelli

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